Caro empreendedor, caro líder, você já parou para pensar no tamanho da responsabilidade que existe em oferecer um trabalho a alguém?

Talvez, ao contratar uma pessoa, você pense em experiência, competência, produtividade e resultados. Mas existe algo acontecendo ali que não aparece no currículo: aquela pessoa também está construindo quem ela é.

Na Psicodinâmica do Trabalho, Christophe Dejours discute uma ideia especialmente importante: para muitos sujeitos, sobretudo no final da adolescência, a identidade ainda está em construção, é incerta e inacabada. Nesse momento, o trabalho pode assumir um papel significativo na construção da identidade e na saúde mental, especialmente por meio das relações e do reconhecimento.

Pense em um jovem que entra na sua empresa sem saber exatamente do que é capaz. Ele recebe uma responsabilidade, aprende, erra, tenta novamente. Alguém confia nele, um colega ensina, uma liderança reconhece seu esforço. Aos poucos, ele percebe que consegue resolver problemas, que alguém precisa daquilo que faz e que sua contribuição tem valor.

E, nesse processo, pode começar a pensar: “Eu sou capaz. Eu consigo. Tenho algo a oferecer. Eu pertenço a este lugar.”

É assim que o trabalho pode ultrapassar a dimensão da remuneração e participar da construção da identidade e do sentido que o sujeito atribui a si mesmo e ao mundo.

A Psicodinâmica do Trabalho destaca a importância do reconhecimento nesse processo, pois ele pode contribuir para transformar o sofrimento vivido no trabalho em experiências de prazer, sentido e fortalecimento da identidade.

Por isso, empreendedor, ao pensar na sua empresa, pense também naquilo que as pessoas aprendem sobre si mesmas enquanto trabalham com você.

Existe espaço para aprender, errar, reparar e contribuir? As lideranças ensinam pelo exemplo? O esforço é reconhecido? Os valores da empresa estão apenas escritos na parede ou são realmente vividos nas relações?

Uma organização também participa do desenvolvimento das pessoas. Não substitui a família, a escola ou a história individual, mas constitui um espaço social importante de aprendizagem, relações, reconhecimento e construção de identidade.

E talvez você também tenha vivido isso. Pense nas empresas pelas quais passou. Quem você se tornou depois delas? Talvez tenha existido uma liderança que acreditou em você, um colega que lhe ensinou algo ou uma oportunidade que revelou uma capacidade que você nem sabia possuir. Ou talvez tenha vivido uma experiência que o fez duvidar de si mesmo.

É por isso que a forma como o trabalho é organizado importa. A cultura importa. As relações, a liderança e o reconhecimento importam.

Falar de saúde mental no trabalho não pode significar apenas falar sobre doença. Precisamos também falar sobre as condições que permitem que o trabalho seja um espaço de saúde, desenvolvimento, pertencimento e realização.

Na TG Saúde, buscamos levar esse olhar da Psicologia do Trabalho para dentro das organizações, compreendendo o sujeito, as relações, as atividades e a organização como partes de uma mesma dinâmica.

Porque talvez a pergunta não seja apenas: “O que meu funcionário pode entregar para a minha empresa?”, mas também:

“Que tipo de pessoa ele pode se tornar a partir da experiência de trabalhar aqui?”

Essa é uma grande responsabilidade. E também uma grande oportunidade.